Visita ao inferno (ou “dê seta enquanto você ainda tem tempo”)

Publicado por em 22 dez 19. Poemas e Poesias, Textos

Seu moço, eu preciso te contar,
mas se foi sonho ou se foi realidade,
se foi imaginação ou se foi visagem,
ah! isso eu não sei falar.

Só sei que foi assim o desenrolado:
Certa noite eu estava dirigindo,
e, de repente, me vi numa estrada estranha
por onde nunca tinha passado.

Lugar estranho, feio de dar dó.
Mato pra todo lado,
tudo escuro e fechado,
eu dirigindo, minha cabeça deu nó.

Não sabia em que estrada eu tinha ido parar,
muito menos como tinha saído do caminho.
Fui seguindo, sempre em frente, rezando e esperando
encontrar viva alma ou uma placa para me direcionar.

Aconteceu que depois de um tempo, vi um grande portal.
Não tinha portas, nem trancas, nem cadeados ou nada mais,
“Ao entrar, não esqueçais, abandonais todas as esperanças, vós que entrais!”
Era a única mensagem que se lia no umbral.

Me lembrei na mesma hora dos textos do poeta Dante.
Mas que raios, que marmota!
Como poderia ter acontecido comigo essa lorota,
ir parar no Inferno por entrar numa estrada errante?

Implorei aos céus, pedindo uma oportunidade nova.
Antes de terminar a oração, um clarão se acendeu
e bem do meu lado um moço alto vestido de branco apareceu.
Rápido disse que era um Anjo e que eu tinha uma prova.

Tentei argumentar, mas quem disse que a voz saiu.
O Anjo tocou meu ombro e disse: “Se acalme, irmão!”
E continuou: “Você aqui será só um escrivão”
“Não chegou sua hora, você vai voltar para dizer o que viu”

Eu continuei dirigindo, o Anjo indicando o caminho.
Percorremos longa estrada, por muito tempo sem parar,
Até que paramos e ele me indicou uma rua feia de assustar:
“Daqui em diante, irmão, você segue a pé e sozinho”

Oxe… e quem sou eu pra retrucar?
Desci do carro e segui o caminho feio
até subir um morro bem lá no meio.
Lá do alto olhei em volta, comecei a observar.

Percebi que lá embaixo, de um lado, havia grande multidão.
Eram pessoas de vários tipos e raças, sofrendo.
Estava num lugar horrível cheio de fogo e tormento.
Visivelmente todas elas passavam por terrível provação.

Mas do outro lado havia uma porteira,
e depois dela havia um lugar lindo.
Era um campo florido, com um rio fluindo.
Com certeza, do Inferno aquela era a saideira.

O problema é que, entre as pessoas sofrendo e a saída,
havia uma estrada com uma bifurcação, cheia de carros passando
O trânsito era uma loucura, verdadeira encruzilhada.
Parecia que ali ninguém atravessava com vida.

A loucura se dava porque, enquanto os carros passavam,
uns seguiam reto dando espaço para o povo passar,
mas outros viravam a curva impedindo o caminho,
só que o imbróglio é que eles não sinalizavam.

Muitas vezes ficava livre, o caminho para a salvação,
com uma longa fila de carros seguindo só em frente.
Mas ninguém sabia se podia atravessar,
ficavam todos parados observando com atenção.

Vez ou outra um corajoso, ou seria um desesperado,
ao avistar a pista livre, tentava atravessar correndo,
mas acabava se distraindo olhando a saída
e acabava que não via um carro que virava acelerado.

O coitado depois que era atropelado
tinha o corpo completamente destruído
e se materializava sofrido
novamente do primeiro lado.

Triste sina deste povo, eu pensava
tão perto da salvação,
mas por causa dos tais carros
sofria e não se salvava.

O Anjo se aproximou de mim de forma quieta
e olhou pra mim apontando lá pra baixo,
com voz pesada e revelou cabisbaixo:
“Esse é o círculo do Inferno de quem não dá seta”

A fala dele caiu em mim como um bloco de cimento.
Meu coração gelou, entrei em desespero, queria chorar.
Voltei para o mundo dos vivos com a missão de proclamar:
“Meu amigo, dê seta enquanto você ainda tem tempo!”

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2 Comentários

  1. Meu caro Rodrigo está de Parabéns!
    Juntar o mistério com poesia, que façanha, que maestria.
    Cada verso, me coloquei também nessa estrada da imaginação, mesmo ainda não sabendo dirigir. Talvez não corra o mesmo risco, mas sei que a pé, também tenho que fazer as melhores escolhas, praticar a gentileza o respeito.
    O caminho a seguir é reto, somos nós e os benditos atalhos. Que nos afastam do caminho.
    Ótima reflexão!
    Parabéns mesmo.
    Sempre me impressiono!

    Por Edivaldo Oliveira em 22 de dezembro de 2019 às 21:12
  2. Que beleza de comentário! Ele em si, já é uma grande reflexão. Obrigado pelo apoio e, é sempre bom, ser elogiado por outro talentoso escritor!

    Por Rodrigo Santos em 22 de dezembro de 2019 às 22:36

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