Parte 1: Festa
O ar da noite em Paranaguá estava impregnado com o aroma do oceano, misturado ao perfume das flores que adornavam a mansão recém-adquirida pelos Albuquerque. Henrique, em sua habitual postura altiva, recebia os convidados com o entusiasmo de quem acabara de alcançar um grande feito. Era uma noite importante: a festa celebrava sua ascensão como proprietário de uma das maiores fazendas de café da região.
O imponente casarão colonial de arquitetura rebuscada fora decorado com esmero. Cortinas de veludo vermelho pendiam das janelas altas, enquanto lustres de cristal lançavam reflexos dourados nas paredes adornadas com espelhos e tapeçarias. No salão principal, uma orquestra tocava valsas animadas que pareciam competir com o burburinho das conversas e o som de taças brindando.
Cláudia deslizava entre os convidados com a graça de uma cortesã, sua pele pálida brilhando sob a luz tremeluzente dos candelabros. Vestia um longo vestido de cetim azul com rendas douradas, que se ajustava perfeitamente ao seu corpo, destacando ainda mais sua figura esbelta e seus cabelos ruivos.
— Henrique Albuquerque! O homem do momento! — exclamou um dos convidados, apertando a mão do anfitrião com vigor.
Henrique sorriu com modéstia ensaiada.
— Não exagere, senhor Oliveira. O trabalho está apenas começando. A fazenda tem grande potencial, mas também seus desafios.
— Ainda assim, poucos conseguem um feito como esse. Sua posição entre os senhores de café está garantida — comentou outro homem, levantando sua taça.
Cláudia observava a cena à distância, enquanto deslizava graciosamente pelo salão.
— Cláudia, querida! — chamou seu irmão, aproximando-se com um sorriso orgulhoso. — Venha, quero apresentá-la a alguns cavalheiros.
Com um aceno quase automático, Cláudia caminhou até Henrique. Ele a conduziu até um pequeno grupo de homens bem vestidos que discutiam sobre as últimas movimentações políticas do Império.
— Senhores, esta é minha irmã, Cláudia Albuquerque.
Os homens inclinaram levemente a cabeça em cumprimento, e Cláudia respondeu com um sorriso discreto, mas sua mente estava em outro lugar. Seus pensamentos estavam presos ao encontro da noite anterior.
Parte 2: Mestre
Sob a sombra das palmeiras imperiais, Senhor Forge se revelou a Cláudia. Ele estava elegantemente trajado, sua capa negra flutuando levemente com a brisa. Seus olhos de âmbar brilhavam como se contivessem os segredos do universo. Cláudia sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando ele se aproximou, a voz grave e melodiosa envolvendo-a em um cântico hipnótico.
— Você é diferente, minha querida — ele disse, com o olhar fixo nela, como se pudesse enxergar através de sua alma. — Tão jovem, tão bela, e ainda assim… insatisfeita. Vejo em seus olhos o desejo por algo mais.
Cláudia não conseguiu responder. Era como se cada palavra dele se tornasse uma nota em uma melodia irresistível, puxando-a para mais perto.
— Todos aqui vivem em uma ilusão — continuou ele, inclinando-se ligeiramente para sussurrar. — Mas você… você nasceu para algo maior. Posso lhe mostrar o que está além deste mundo medíocre.
Ele estendeu a mão, e, sem pensar, Cláudia a tomou. Seu toque era frio, mas não desagradável. Ele a guiou para longe das luzes da festa, para um jardim isolado. Ali, sob a luz prateada da lua, ele se aproximou ainda mais, seu rosto quase tocando o dela.
— Você aceita a liberdade, minha pequena? — ele perguntou com um sussurro carregado de promessas.
Ela hesitou, mas algo dentro dela ansiava pela promessa de algo mais. Ele aproximou os lábios de sua mão, com uma reverência quase devota.
— Confie em mim, Cláudia. Eu lhe darei o mundo. E, em troca, você será minha aliada.
A jovem, fascinada por aquele homem misterioso e pela sedutora promessa, sentiu o toque de seus lábios frios em seu pescoço. A sensação foi uma mistura de dor e prazer, um êxtase que a consumiu completamente. A partir daquele momento, a voz dele nunca mais deixou sua mente.
Senhor Forge era mais que um homem; ele era uma força, um predador ancestral. Cláudia, agora ligada a ele por algo mais forte que sangue, tornara-se uma peça em seu jogo sombriamente elaborado.
Parte 3: Disfarce
Enquanto a sociedade a via como a donzela perfeita — gentil, caridosa, alheia aos jogos de poder —, Cláudia maquinava em segredo. Cada sorriso era calculado, cada palavra era um movimento no tabuleiro de Senhor Forge. Os homens a adoravam, as mulheres a invejavam, e ninguém suspeitava que por trás daqueles olhos brilhantes havia uma alma corrompida pela escuridão.
— Cláudia, você está tão pensativa — comentou Henrique, interrompendo seus devaneios durante o sarau.
— Apenas admirando como tudo aqui parece tão… efêmero — ela respondeu, sua voz doce mascarando a ironia de suas palavras. Senhor Forge ria em sua mente.
— Tão talentosa — ele murmurou em sua consciência. — Você os manipula com perfeição, minha pequena.
Parte 4: Intriga
Entre os convidados, havia um homem diferente. Capitão Augusto, um militar recentemente transferido para Paranaguá, parecia desconfiar da perfeição de Cláudia. Ele a observava de longe, como se tentasse decifrar um enigma. Mais do que isso, ele demonstrava um interesse evidente por ela, o que não passou despercebido por Senhor Forge.
— Ele sente algo, minha doce Cláudia. Um coração apaixonado é uma arma poderosa. Aproveite-se disso — sussurrou ele, com um tom de comando.
Cláudia notou o olhar atento de Augusto e ofereceu-lhe um sorriso, tímido e encantador. O capitão, sem hesitar, aproximou-se para cumprimentá-la.
— Senhorita Cláudia, permita-me dizer que sua presença ilumina este evento — disse ele, com um leve toque de nervosismo em sua voz.
— É muita gentileza sua, Capitão Augusto — respondeu ela, inclinando levemente a cabeça, fingindo uma timidez que escondia sua verdadeira intenção.
Enquanto trocavam palavras triviais, Cláudia sentia a influência de Senhor Forge guiando cada gesto, cada olhar. Ele a instruía silenciosamente, usando o interesse do capitão como uma nova peça em seu jogo sombrio. Augusto, por sua vez, parecia cada vez mais envolvido pela jovem, alheio à teia que se formava ao seu redor.
— Ele será útil, minha querida — murmurou Senhor Forge em sua mente. — Mas cuidado. Corações apaixonados também podem ser perigosos.
Parte 5: Padre
A festa seguia animada, com música e risadas preenchendo os salões da mansão dos Albuquerque. Capitão Augusto, que não tirava os olhos de Cláudia, sentiu a necessidade de compartilhar seus sentimentos. Avistando Padre Alberto, que havia sido convidado por Henrique para abençoar os anfitriões, o capitão se aproximou.
— Padre Alberto! Que bom vê-lo aqui — cumprimentou Augusto, apertando a mão do amigo. — Preciso de um conselho, e o senhor é o único em quem confio.
O padre notou o tom urgente na voz do capitão e afastou-se com ele para um canto mais reservado do salão.
— Claro, meu filho. O que o inquieta? — perguntou Alberto, com sua habitual serenidade.
Augusto hesitou por um momento antes de falar.
— É sobre Cláudia. Há algo nela que me deixa fascinado. Não sei se é a beleza, a graça, ou apenas a forma como ela parece… intocada por este mundo. Mas, ao mesmo tempo, sinto algo estranho, como se… — Ele parou, buscando as palavras certas. — Como se houvesse uma sombra ao redor dela.
Padre Alberto franziu o cenho, o olhar imediatamente mais atento.
— O coração, quando apaixonado, às vezes nos engana, Augusto. No entanto, se algo o preocupa, talvez eu possa conversar com a jovem e entender melhor essa… sombra que mencionou.
Augusto, aliviado, assentiu. — Ficaria muito grato, padre. Quero acreditar que ela é tudo o que aparenta ser, mas não consigo ignorar esse pressentimento.
Parte 6: Fúria
Do lado de fora da mansão, sob a sombra das palmeiras, Senhor Forge observava a movimentação. A presença do padre o enfurecia, pois os objetos sagrados o impediam de entrar na casa.
— Esse homem de Deus não deveria estar aqui! — ele rosnou em um sussurro sombrio que apenas Cláudia podia ouvir em sua mente. — Ele representa um perigo. Não posso cruzar as portas enquanto ele estiver aí dentro.
Cláudia, que estava no meio do salão, sentiu a voz do mestre reverberar em sua mente. Ela engoliu em seco, tentando não demonstrar nervosismo.
— O que quer que eu faça, meu senhor? — respondeu mentalmente.
— Use o capitão. Seduza-o. Convença-o de que o padre está tentando separá-los. Faça-o acreditar que Alberto é um obstáculo para seu romance. Assim, o coração dele estará nas suas mãos — ordenou Forge, com um tom cortante.
Parte 7: Flerte
Cláudia avistou Augusto ainda conversando com Padre Alberto. Com um sorriso calculado, ela deslizou pelo salão até se aproximar deles. Sua presença era como um feitiço, e ambos os homens imediatamente voltaram a atenção para ela.
— Capitão Augusto, Padre Alberto — saudou, inclinando levemente a cabeça. — Que prazer vê-los conversando. Espero que não estejam falando de assuntos muito sérios em uma noite tão agradável.
Augusto, visivelmente encantado, abriu um sorriso.
— Apenas comentávamos como a senhorita ilumina esta festa com sua presença.
Cláudia corou levemente, fingindo timidez.
— Que gentileza sua, capitão. Mas noto que ambos estão muito ocupados. Não gostaria de incomodá-los.
Ela fez menção de sair, mas Augusto rapidamente a deteve.
— De forma alguma, senhorita Cláudia. Na verdade, eu gostaria de poder falar com a senhorita em particular, se me permite.
Padre Alberto lançou um olhar cuidadoso a Augusto, mas Cláudia aproveitou a oportunidade. Fingindo relutância, assentiu.
— Claro, Capitão. Mas não sei se o padre aprovaria. Ele parece tão vigilante em relação às minhas intenções…
Augusto, percebendo a insinuação, sentiu um desconforto misturado com ciúme.
— Padre Alberto está apenas cuidando de mim, senhorita, mas garanto que não preciso de proteção quando estou com alguém tão… encantadora.
Cláudia sorriu, satisfeita ao perceber que as sementes da dúvida haviam sido plantadas. Enquanto Augusto se afastava com ela, Padre Alberto ficou observando a cena com um olhar pesado, como se sentisse que algo mais profundo estava acontecendo.
Parte 8: Mal-estar
Enquanto conversava com Augusto, Cláudia começou a vacilar, levando uma mão à testa e fechando os olhos como se estivesse tonta. O capitão, alarmado, rapidamente a segurou pelo braço.
— Senhorita Cláudia, está tudo bem? — perguntou, preocupado.
Ela abriu os olhos lentamente, a expressão vulnerável.
— Acho que a emoção da festa foi demais para mim, capitão. Sinto-me um pouco fraca. Poderia me levar ao meu quarto? Não quero preocupar meu irmão.
— É claro! — respondeu ele, sem hesitar.
Com cuidado, Augusto a conduziu pelos corredores da mansão, ajudando-a a subir as escadas até seu quarto. A cada passo, Cláudia se apoiava mais nele, criando uma intimidade quase imperceptível, mas inebriante para o capitão.
Quando chegaram, ela pediu que ele a ajudasse a sentar-se na cama. O quarto, iluminado apenas por um candelabro no criado-mudo, exalava uma atmosfera de aconchego e mistério. Cláudia suspirou, tocando o braço de Augusto suavemente.
— Obrigada, capitão. Não sei o que teria feito sem sua ajuda.
Ele sorriu, tentando disfarçar a confusão de emoções que sentia. — Sempre estarei aqui para ajudá-la, senhorita Cláudia.
Parte 9: Sedução
Ela o encarava com seus olhos brilhantes, sua expressão lentamente mudando de gratidão para algo mais intenso. Lentamente, Cláudia se levantou, ficando muito próxima a ele.
— Augusto… posso chamá-lo assim, não posso? — perguntou, com uma voz que era quase um sussurro.
— Claro… Cláudia — respondeu ele, com sua voz vacilando.
Ela deu um passo ainda mais perto, inclinando a cabeça para olhar diretamente em seus olhos. Seus lábios estavam tão próximos que Augusto quase podia sentir o calor deles.
Com um suspiro teatral, ela levou a mão ao peito, ajustando de forma provocante o decote de seu vestido. — Este espartilho está tão apertado… — murmurou, como se falasse para si mesma, mas claramente querendo atrair o olhar do capitão. Quando ele desviou os olhos rapidamente, ela sorriu internamente.
Depois, com um movimento lento, Cláudia inclinou-se para massagear ligeiramente o tornozelo, alegando: — Acho que torci um pouco o pé quando subi as escadas… — Enquanto fazia isso, ergueu delicadamente a barra da saia, revelando uma visão breve, porém irresistível, de suas coxas alvas.
Augusto tentou manter a compostura, mas o rubor em seu rosto o traiu. Ele estava completamente perdido diante do magnetismo dela.
— Você é tão gentil, tão forte. É raro encontrar alguém assim… — continuou ela, sua mão subindo até o ombro dele. — Eu sempre desejei alguém que me enxergasse de verdade, Augusto.
O capitão ficou imóvel, completamente enfeitiçado por ela. Cláudia inclinou-se ainda mais, seus lábios pairando a um fio de distância dos dele. Sua voz tornou-se quase um sussurro rouco, carregada de promessas.
— Mas… — ela disse, subitamente se afastando, colocando uma mão no peito como se fosse dominada por um pensamento terrível. — Como poderia sequer pensar em algo assim com… com um padre na casa?
Parte 10: Negação
Augusto, que havia sido levado ao limite pela sedução dela, piscou, confuso.
— O quê? Um padre? — Ele balbuciou, lutando para processar a mudança repentina.
Cláudia afastou-se alguns passos, apertando as mãos contra o peito, simulando angústia.
— É o Padre Alberto… Ele não nos aprovaria. Ele está sempre vigiando, sempre julgando. Eu… eu não poderia desrespeitá-lo. Seria um pecado imperdoável!
A menção ao padre fez Augusto cerrar os punhos. Ele sentiu uma onda de raiva e frustração, não contra Cláudia, mas contra a figura de Alberto. As palavras dela ecoaram em sua mente, plantando dúvidas.
— Cláudia, eu… Eu não deixarei que ninguém nos impeça, se for isso que você teme — disse ele, em um tom firme, tentando acalmá-la.
Ela olhou para ele com olhos cheios de uma mistura de gratidão e vulnerabilidade calculada.
— Você é tão nobre, Augusto. Mas… Se o padre não estivesse aqui, certamente eu seria sua essa noite. Por favor, me entenda. — Cláudia disse displicentemente passando o polegar entre seu decote.
Augusto sentiu seu corpo queimar de desejo.
— Mas, Cláudia, querida, o padre Alberto não está aqui. Ele não pode nos incomodar…
A jovem repousou a mão suavemente sobre a coxa do capitão, a poucos centímetros da virilha, fez um movimento como se fosse desmaiar, deixando sua cabeça cair no peito do rapaz e então sussurrou:
— Se meu irmão soubesse que foi o padre que me fez me sentir mal, o colocaria para fora da casa e então, teríamos o resto da noite para nós dois…
Ela então se afastou suavemente e começou a desamarrar o espartilho, e mordendo os lábios disse:
— Agora vá, querido Augusto. Vou tirar essas roupas pesadas e descansar. Caso o padre Alberto vá embora, venha me avisar, por favor.
Augusto assentiu, seu coração dividido entre o desejo e a raiva que começava a ferver contra o homem de Deus. Enquanto ele saía do quarto, decidido a lidar com o padre, Cláudia fechou a porta lentamente, um sorriso satisfeito se formando em seus lábios.
Dentro de sua mente, o Senhor Forge riu.
— Perfeito, minha pequena. O capitão já está preso em nossa teia. Agora, vamos usá-lo para tirar o padre do caminho.
Parte 11: Falso Testemunho
A paixão fervente que Cláudia havia despertado em Augusto não apenas o enfeitiçava, mas também alimentava uma ira ardente contra Padre Alberto. Sim, aquele homem ousava impedir o amor entre Cláudia e ele.
Com passos largos e expressão sombria, ele cruzou os corredores da mansão pensando em um jeito de fazer o anfitrião da festa expulsar o sacerdote até encontrar Henrique no salão principal, ainda envolto no brilho das luzes da festa.
— Henrique! — Augusto chamou, sua voz carregada de indignação.
O irmão, distraído com uma conversa, virou-se imediatamente. — O que foi, Augusto? Parece que viu um fantasma.
— Não é um fantasma, mas algo igualmente grave. — Augusto aproximou-se, falando em um tom mais baixo, mas com intensidade suficiente para que Henrique percebesse a gravidade da situação. — É sobre o padre Alberto.
Henrique arqueou as sobrancelhas, intrigado.
— O que tem o padre?
— Ele… ele desrespeitou Cláudia — declarou Augusto, apertando os punhos. — Ela está em lágrimas no quarto por causa do atrevimento dele. Ele a tratou de forma… inaceitável.
O rosto de Henrique escureceu.
— Isso é verdade? O padre Alberto?
— Eu mesmo a levei para o quarto. Ela estava transtornada, Henrique. Não podemos permitir que um homem como ele fique sob o mesmo teto que ela. É uma questão de honra.
Henrique cerrou os dentes, a raiva começando a tomar conta. Ele confiava no amigo, e a ideia de que alguém tivesse ousado ultrajar Cláudia era insuportável. Sem pensar duas vezes, ele girou nos calcanhares.
— Onde está ele agora? — perguntou determinado.
— Na biblioteca, creio — respondeu Augusto, tentando controlar o tremor na voz. Por mais que estivesse convencido de estar defendendo seu amor por Cláudia, algo em seu íntimo se incomodava com a facilidade com que havia acusado o padre.
Parte 12: Expulsão
Henrique não perdeu tempo. Caminhou rapidamente até a biblioteca, onde encontrou padre Alberto folheando calmamente um livro de orações, alheio ao turbilhão que se aproximava.
— Henrique, boa noite — disse o padre, com um sorriso cortês. — Precisa de algo?
— Sim, padre. Que saia da minha casa! — rosnou Henrique, sua voz ecoando pelas paredes.
Padre Alberto ergueu o olhar, confuso. — Perdão? Não compreendo.
— Não se faça de inocente! — gritou Henrique, aproximando-se. — Sei o que fez com minha irmã. Como ousa desrespeitar uma dama sob o meu teto?
— O que está dizendo? — Alberto levantou-se, alarmado. — Eu jamais faria algo para desrespeitar Cláudia. Há algum engano aqui.
Mas Henrique não estava disposto a ouvir. Cego pela acusação de Augusto e pela raiva que sentia, agarrou o padre pelo colarinho.
— Fora! — gritou Henrique, arrastando o padre para fora da biblioteca.
O padre tentou resistir, mas Henrique era mais forte, e Augusto logo se juntou ao dono da casa para ajudar. Alberto mal teve tempo de reagir antes que os dois o arrastassem para fora da mansão.
Enquanto a festa continuava ao longe, Henrique empurrou o padre contra o chão, e Augusto, tomado por uma fúria que ele próprio não entendia, desferiu um chute.
— E nunca mais ouse voltar! — gritou ele.
Padre Alberto tentou levantar-se, respirando com dificuldade. — Vocês estão cometendo um erro terrível… — balbuciou ele, limpando o sangue do canto da boca.
— O único erro foi permitir que você entrasse aqui — retrucou Henrique, antes de girar nos calcanhares e retornar à mansão, deixando o padre caído na lama.
Augusto hesitou por um momento, mas a imagem de Cláudia esperando por ele encheu sua mente. Ele deu as costas ao padre, seguindo Henrique.
Parte 13: Médico
Com o padre finalmente expulso, Forge que observava das sombras, sua figura imponente envolta na penumbra, sentiu o espaço ao redor da casa mudar; não havia mais o que o impedisse de permanecer na casa.
Com um sorriso vitorioso nos lábios, ele desapareceu.
Cláudia esperou o momento certo para pôr o restante do plano em prática. Na penumbra de seu quarto, ela se deitou na cama com o semblante pálido e uma mão repousando sobre a testa, como se estivesse acometida por um mal súbito.
Augusto e Henrique, ainda tomados pela tensão do que ocorrera com o padre, foram verificar Cláudia antes de retornar à festa. Ao abrirem a porta do quarto, encontraram-na deitada, imóvel. Henrique aproximou-se rapidamente, com o rosto carregado de preocupação.
— Cláudia, responda! O que aconteceu, minha querida irmã?
Ela abriu os olhos lentamente, como se estivesse lutando contra uma fraqueza extrema, e murmurou com uma voz fraca:
— Uma fraqueza… sinto como se meu corpo inteiro estivesse se desfazendo.
Henrique segurou sua mão, sua expressão em pânico.
— O que podemos fazer? Queremos ajudá-la!
Cláudia suspirou profundamente, como se falar fosse um esforço monumental.
— Há apenas uma pessoa que pode me ajudar… meu médico, senhor Forge. Ele conhece minha condição e sabe o que fazer.
Henrique assentiu prontamente.
— Muito bem. Diga-me onde encontrá-lo, e eu mandarei alguém buscá-lo imediatamente.
Parte 14: Excêntrico
Cláudia balançou a cabeça levemente, franzindo a testa como se a ideia a preocupasse.
— Não… senhor Forge é muito meticuloso. Ele é um homem de hábitos peculiares e não atenderá ao chamado de qualquer um. — Ela fez uma pausa dramática, como se o esforço para continuar falando fosse imenso. — Henrique, você precisará ir pessoalmente até ele… e fazer um convite formal para que ele venha me atender.
Henrique olhou para Augusto, claramente confuso.
— Um convite formal? Que tipo de médico exige algo assim?
Cláudia segurou a mão do irmão com uma força surpreendente para alguém tão “debilitada”.
— Ele é… excêntrico, mas extremamente habilidoso. Por favor, Henrique. Estou contando com você.
— Por favor, Henrique, vá. Eu cuidarei de Cláudia até o seu retorno. — Augusto disse, imaginando que tudo fosse parte do plano da jovem.
Henrique hesitou por um momento, mas não conseguiu negar o pedido da irmã, especialmente vendo-a em tal estado.
— Muito bem. Dê-me o endereço, e eu irei buscá-lo.
Cláudia tirou um pequeno pedaço de papel do criado-mudo ao lado da cama e o entregou a Henrique.
— Aqui está. Por favor, não demore.
Henrique pegou o papel e deu um último olhar preocupado para Cláudia antes de sair do quarto. Ao sair recomendou que Augusto não saísse do quarto em nenhuma hipótese e balbuciou algo sobre como médicos deveriam ser menos excêntricos e mais práticos.
Parte 15: Convite
Ao chegar à residência de Forge, Henrique bateu à porta com força, um misto de urgência e frustração estampado no rosto. A porta se abriu, e lá estava o Senhor Forge, impecavelmente vestido, com sua presença dominadora quase sobrenatural.
— Boa noite — cumprimentou Forge, inclinando levemente a cabeça. — Não esperava sua visita a esta hora. Aconteceu algo?
Henrique, ainda desconfortável com toda a situação, endireitou-se.
— Minha irmã, Cláudia Albuquerque, está doente. Ela disse que apenas o senhor pode ajudá-la. Vim buscá-lo.
Senhor Forge esboçou um sorriso suave, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação sombria.
— Fico honrado pela confiança dela. No entanto, como deve saber, sou muito cauteloso em aceitar convites sem a devida formalidade. A senhora sua irmã certamente mencionou isso, não é?
Henrique franziu o cenho, impaciente. — Sim, ela disse que o senhor é… meticuloso. Então, aqui estou, senhor Forge. Estou convidando-o formalmente para ir à nossa casa e atender Cláudia. Por favor, venha.
O sorriso de Forge se alargou, como se uma grande vitória tivesse acabado de ser alcançada. Ele fez uma breve reverência, escondendo a satisfação que queimava dentro de si.
— Aceito o convite, senhor Henrique. Irei imediatamente.
Forge recolheu seu sobretudo e seguiu Henrique, suas intenções sombrias agora livres para se concretizar. O jogo estava finalmente em suas mãos.
Parte 16: Manipulação
No quarto, Augusto permanecia ao lado de Cláudia, segurando sua mão enquanto ela se recostava na cama. Ele não conseguia esconder a empolgação por estar ali com ela, sem o olhar vigilante do irmão dela.
Cláudia suspirou, virando-se levemente na cama, o movimento propositalmente revelando mais de sua perna, por baixo da saia, enquanto ela ajeitava o tecido “desajeitadamente”.
— É tão bom ter você por perto, Augusto. — Sua voz era suave, mas carregava uma nota de sedução. — Sempre sinto que posso me apoiar em você.
Augusto engoliu em seco, desviando os olhos, mas incapaz de ignorar a visão do decote que Cláudia havia deixado mais exposto ao “tentar” se ajeitar no travesseiro.
— Eu… eu faria qualquer coisa por você, Cláudia. — Ele olhou para ela com intensidade. — Você sabe disso.
Dentro da mente de Cláudia, a voz de Forge ecoava, sombria e imperiosa:
— Mantenha-o perto. Mantenha-o cego. Atraia-o para você, e não o deixe pensar em mais nada.
Cláudia sorriu para Augusto, estendendo a mão para tocar levemente o rosto dele.
— É reconfortante saber disso, Augusto. Eu me sinto segura com você aqui, sinto que posso me entregar sem medo.
Ela se inclinou um pouco mais, o olhar fixo no dele, enquanto sua mão deslizava suavemente até o ombro largo. Augusto estava completamente perdido, sob o encanto dela, convencido de que aquele momento era um sinal de que Cláudia o desejava tanto quanto ele.
Parte 17: Entrada
Henrique retornou à casa com Senhor Forge, ainda desconfortável com a presença do acompanhante. Ele optou por entrar pela porta dos fundos para não despertar a curiosidade dos convidados.
Ao se aproximarem da porta, o médico parou abruptamente com o olhar fixo na entrada.
— Senhor Henrique — disse Forge com sua voz calma e controlada —, antes de prosseguirmos, preciso de sua permissão para entrar.
Henrique franziu o cenho, confuso.
— Mas… já estamos na porta. O senhor não pode simplesmente entrar?
Forge sorriu enigmaticamente.
— Sou um homem de princípios, senhor Henrique. Jamais cruzo o limiar de uma casa sem ser convidado formalmente.
Henrique, impaciente, acenou com a mão.
— Está bem. Considere-se convidado, senhor Forge. Agora, por favor, vamos entrar.
Assim que as palavras foram ditas, Forge cruzou a entrada com uma postura triunfante, seus olhos brilhando com uma malícia contida.
Parte 18: Despertar
Quando abriu a porta do quarto da irmã, o choque foi devastador.
Cláudia estava em uma postura provocante sobre Augusto, seus dedos entrelaçados no cabelo do capitão e seus lábios perigosamente próximos aos dele. O vestido de cetim azul estava levemente deslizado sobre seus ombros, expondo mais pele do que Henrique julgava aceitável.
Augusto, ruborizado e claramente embriagado pela sedução, não se moveu imediatamente, incapaz de articular qualquer desculpa.
— O que está acontecendo aqui? — bradou Henrique, furioso.
Cláudia virou-se lentamente, um sorriso predatório iluminando seu rosto. Forge, parado à porta, sorriu satisfeito.
— Agora nossa garotinha irá se tornar mulher, meu caro Henrique — disse Forge em tom macabro. — Agradeço por me convidar a entrar.
Henrique olhou para Forge, confuso, e então para Cláudia, cuja expressão transformou-se em algo monstruoso. Os olhos da moça pareciam brilhar com um vermelho profundo, e seus caninos alargaram-se em pontas afiadas.
— Cláudia? — murmurou Henrique, dando um passo hesitante para trás.
No mesmo instante a moça lançou-se sobre Augusto, cravando seus dentes no pescoço do homem, que soltou um grito agudo e desesperado. O sangue escorreu rapidamente pelo colarinho da camisa de Augusto, que estremeceu sob o ataque brutal.
Forge ergueu os braços como um maestro conduzindo uma orquestra.
— O banquete começou.
Henrique tentou reagir, mas Forge o conteve com um simples gesto.
— Você, meu caro anfitrião, terá a honra de assistir ao despertar completo de sua querida irmã.
Cláudia ergueu-se, os lábios e o queixo manchados do sangue de Augusto, cujo corpo jazia inerte tombando no chão. Sua respiração era pesada, e seus olhos pareciam famintos. Ela olhou para Forge e inclinando-se em um movimento de submissão, sussurrou:
— Está feito, mestre.
Forge estendeu a mão para ela, com um sorriso cruel.
— Venha, minha cria. Está na hora de seu batismo de sangue.
Cláudia, ainda ofegante, seguiu Forge, que caminhava mais a frente, arrastando Henrique para o salão principal, onde a festa continuava e os convidados ainda dançavam e conversavam, alheios ao que estava por vir.
Final: Batismo de Sangue
Com um grito, Cláudia lançou-se sobre um dos convidados, rasgando carne e músculos com ferocidade sobrenatural. O salão explodiu em pânico, mas Forge, com um gesto sobrenatural, trancou todas as portas, aprisionando os convidados em seu destino sangrento.
A mansão dos Albuquerque transformou-se em um cenário de horror. Cláudia movia-se com uma agilidade inumana, atacando sem piedade, enquanto os gritos ecoavam entre as paredes. Forge observava como uma sombra predadora, escolhendo suas vítimas com um sorriso gélido.
Henrique, atônito, assistia à cena de carnificina sem acreditar. Tentou gritar, mas sua voz foi engolida pelos sons de desespero e pelo riso cruel de Forge.
Quando o silêncio caiu, o salão estava banhado em sangue, cheio de corpos espalhados como fantoches quebrados. Cláudia permanecia ao lado de Forge, sua respiração ofegante, os olhos ardendo com uma luz carmesim.
— Agora, você é minha por completo — declarou Forge, erguendo a mão de Cláudia como em um juramento infernal.
Henrique estava encostado à parede. Ao redor, a opulência da festa havia sido reduzida a um cenário grotesco de destruição.
Cláudia aproximou-se lentamente. Sua beleza ingênua dera lugar a uma força terrível e seus olhos, antes doces, brilhavam com um brilho sombrio.
— Por quê, Cláudia? — o rapaz perguntou com voz fraca. — Por que escolheu isso?
Ela tocou seu rosto, deixando nele uma mancha de sangue.
— Eu não escolhi, Henrique. O senhor Forge me escolheu, e agora não há volta.
Henrique agarrou o pulso dela com a pouca força que lhe restava, tentando desesperadamente encontrar uma solução, uma saída para aquele pesadelo.
— Você ainda pode lutar! — implorou ele. — Você é minha irmã!
Cláudia riu.
— Fui sua irmã. Agora sou algo que você jamais entenderá.
— Está na hora, minha querida — a voz rouca e cheia de poder de Forge ecoou.
Cláudia levantou-se. Seus dedos deslizaram pelo rosto do irmão em um último toque.
Henrique estendeu a mão para ela, mas as palavras não saíram. Ele apenas assistiu, impotente, enquanto Cláudia caminhava até Forge. Juntos, eles desapareceram na escuridão, deixando a mansão em ruínas e Henrique sozinho em seu tormento.