A cabana
O vento cortava a estrada deserta enquanto Lena e Mateus seguiam viagem na velha motocicleta. O céu, antes azul, começou a se cobrir com nuvens pesadas, e não demorou para que as primeiras gotas frias caíssem sobre seus capacetes.
— Acho melhor procurarmos um lugar para nos abrigar — Mateus gritou tentando superar o ronco do motor.
Lena apontou para uma trilha de terra que se afastava da rodovia e sumia entre árvores densas até algo que parecia uma cabana. Sem muita escolha, Mateus virou a moto e seguiu pelo caminho e, poucos metros depois, encontrou a casa de madeira.
A construção parecia abandonada, com janelas quebradas e o telhado parcialmente desmoronado, mas oferecia um refúgio melhor do que enfrentar a tempestade.
Eles entraram rapidamente, batendo os pés no chão de madeira para se livrar da lama. O interior cheirava a mofo, mas havia uma velha lareira de pedra no canto da sala. Com um pouco de esforço e algumas folhas secas, Mateus conseguiu acender um fogo modesto para iluminar e aquecer o casal, que riu do inesperado refúgio.
— Bom, não podemos dizer que não tivemos uma sexta-feira diferente — Lena brincou, ajeitando-se sob um cobertor improvisado, uma blusa de Mateus.
A noite prometia ser romântica. Eles estavam sozinhos, ouvindo o barulho da chuva tamborilando no telhado e sentindo o calor do fogo. Lena se aninhou nos braços do namorado e ele passou os dedos por seus cabelos molhados, afastando algumas mechas de seu rosto.
— Você está gelada — ele murmurou, puxando-a para mais perto.
Lena sorriu, levantando os olhos para ele. A luz aconchegante da lareira refletia em seus rostos, criando um ambiente quase mágico. Ela deslizou os dedos pela barba curta de Mateus, sentindo o calor de sua pele contra a sua. O tempo pareceu desacelerar, deixando apenas os dois ali, naquele instante perfeito.
Mateus segurou seu rosto com delicadeza, seus polegares acariciando suas bochechas avermelhadas pelo calor. O desejo de um beijo pairava entre eles, e quando seus lábios finalmente se tocaram, a chuva e o frio do lado de fora pareciam desaparecer. O gosto de Lena era quente e doce, e Mateus aprofundou o beijo, sentindo o coração acelerar.
— Eu poderia ficar assim para sempre — sussurrou Lena, aproximando seu rosto do dele.
O dono da casa
No momento em que seus lábios quase se tocaram, um som ecoou pela casa: um rangido pesado, seguido de um baque surdo.
Alguém estava ali.
O casal congelou. Os olhos de Mateus foram até a porta, que se abriu lentamente, revelando uma silhueta sombria contra a escuridão da tempestade. Era um homem alto, vestindo um sobretudo escuro encharcado de chuva. Seus olhos brilharam à luz do fogo.
— Vocês… precisam sair daqui. Agora! — A voz dele era rouca, urgente, quase desesperada.
Mateus se levantou de um salto, colocando-se entre Lena e o estranho.
— Desculpe, senhor, não sabíamos! A casa parecia abandonada, só queríamos nos abrigar da chuva…
— Vocês não entendem! — O homem gritou, batendo a porta atrás de si com força. Ele parecia aflito, o peito subindo e descendo em respirações rápidas. — Vocês têm que ir embora, AGORA! Antes que seja tarde demais!
O desespero em sua voz fez o coração de Lena disparar.
O homem tremia visivelmente, segurando os braços com as mãos. Ele olhou furioso para o casal e socou a parede.
— Saiam… antes que eu… antes que… — Ele grunhiu.
O homem caiu no chão e estremeceu, convulsionando em espasmos grotescos. Ossos se alongaram, os músculos se expandiram, e um rosnado profundo preencheu o ambiente. Garras surgiram onde antes havia mãos, e os olhos brilharam com um tom amarelado bestial.
Lena sufocou um grito enquanto Mateus recuava lentamente, os olhos arregalados em terror. O lobisomem avançou um passo exibindo suas presas reluzindo à luz da lareira.
Mateus agarrou Lena pela mão, tentando puxá-la em direção à porta, mas a criatura saltou com agilidade sobrenatural, bloqueando a saída.
O jovem casal estremeceu junto com as paredes da velha casa com o uivo do monstro.
O ataque
Lena olhou ao redor desesperada, buscando qualquer coisa que pudesse usar como arma. Seus olhos pousaram em um galho grosso caído no chão. Num ato de puro instinto, ela o agarrou e se preparou para o inevitável confronto.
O lobisomem avançou.
Mateus agarrou uma cadeira velha e tentou desferir um golpe, mas a criatura desviou com velocidade assustadora e o arremessou contra a parede com um só movimento. O impacto arrancou o ar de seus pulmões.
Lena gritou e atacou com o galho, como se fosse uma lança, mirando o peito do monstro. O lobisomem rugiu, desviando parcialmente, mas a madeira rasgou sua lateral, espalhando sangue quente pelo chão. O cheiro metálico tomou o ar. Furioso, ele golpeou Lena com uma patada violenta, lançando-a sobre os destroços da casa.
Mateus se levantou, tonto e ofegante, e viu Lena tentando se erguer. A fera se aproximava dela, rosnando enquanto baba escorria em seus dentes expostos. Sem pensar, ele pegou uma brasa da lareira e a atirou contra o monstro. A bola incandescente acertou seu braço peludo, fazendo-o recuar com um uivo de dor.
Aproveitando a distração, Lena se arrastou até outro pedaço de madeira afiada e, num movimento desesperado, cravou-o na perna da criatura. O lobisomem urrou de agonia e caiu de joelhos. Mateus puxou Lena para cima e os dois correram para a porta, tropeçando na lama e cegados pela chuva gelada.
O monstro arrancou a madeira de sua perna e soltou um uivo aterrorizante, mas eles não esperaram para ver mais. Correram em direção à estrada, o som de patas pesadas os perseguindo pela trilha enlameada. A necessidade de sobreviver os impulsionava para frente.
Ao longe, os farois de um caminhão cortaram a escuridão. Lena e Mateus correram em sua direção, acenando freneticamente. O veículo freou bruscamente, e o motorista, assustado, os ajudou a subir.
Atrás deles, nos limites da floresta, olhos amarelos brilharam na escuridão antes de desaparecerem entre as sombras.
O casal se abraçou, ofegante, enquanto o caminhão acelerava pela estrada.